Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.

A overdose de batata na Alemanha

05 de dezembro de 2011 1

Não sou descendente de alemães, mas sempre gostei de batata. Até hoje lembro de um vendedor que ia de casa em casa, quando eu era criança, dizendo que tinha mil maneiras de fazer batata: frita, assada, cozida, amassada... Durante a viagem para a Alemanha, pude comprovar que embora o vendedor fosse exagerado, naquele país, os cozinheiros podem chegar bem perto disso.

A primeira batata veio em Muenchen, ou Munique, como a gente diz por aqui. Ficamos seis horas no aeroporto e a refeição foi o tal do Schweinebraten. As lascas do porco assado eram cortadas no tamanho que o freguês queria e para acompanhar, uma belíssima salada de batata. Ah, tinha também um chucrute com muito bacon por cima. Mas confesso que meu estômago não aguenta esta iguaria.

No dia seguinte, já em Hannover, um novo prato típico. Salada de batata com linguiça. É o arroz com feijão deles, disse o garçom, gaúcho de Porto Alegre. Achei um prato muito gostoso.

No restaurante de um hotel da pequena Goslar, carne de ganso com batatas cozidas, temperadas com salsinha, e glês. Uma maravilha! Minha irmã sabe fazer glês. É um bolinho de batata que tem um pedaço de pão amanteigado dentro. Este que eu comi na Alemanha estava bem parecido com o dela.

Carne de ganso: com batatas, claro

No terceiro e no quarto dia, as batatas nos perseguiram em todos os pratos. Na despedida de Hannover, por exemplo, quase todo o grupo experimentou o famoso joelho de porco. E elas estavam lá para acompanhar. Batatas, batatas, batatas.

Joelho de porco com batatas

Só tive uma noção da overdose quando fiz um pedido para minha amiga Rita, no Brasil. Sempre que viajo para algum lugar onde não tem feijão e arroz, ela me espera, na volta, com uma comidinha caseira como essa, mais um guisado, uma batatinha. Desta vez, pedi uma mudança no cardápio: guisadinho com moranga, por favor. Fiquei sem comer batata por uma semana. Uma desintoxicação pessoal. Continuo gostando, claro. Mas todo dia, não dá.

A despedida do bugio

02 de dezembro de 2011 4

Alguns dizem que o trabalho é a segunda casa da gente. Não sei. Mas tenho certeza de que assim como na família, encontramos pessoas que merecem admiração, amor, respeito e que gostaríamos de ter para sempre do nosso lado. José Cherubis Mendes é uma delas. O motorista que se despediu esta semana da RBS foi um dos grandes colegas de trabalho que tive em 16 anos de televisão.

Seu Mendes, como todo mundo o chama, pegava no batente ainda de madrugada. É o senhor que aparece na vinheta do “pra fazer a TV que você vê...” e que diz: “bom dia, gurias.” Sempre com uma frase de efeito na ponta da língua, fazia uma dupla perfeita com o cinegrafista Sérgio Rosa. Durante alguns anos, quando fui repórter fixo do Bom Dia Rio Grande, nos víamos todos os dias para entrar ao vivo no programa. E antes disso, lá por 1999, saíamos às 5h30min para gravar uma entrevista que seria transmitida no jornal. Era uma correria de louco chegar na casa das pessoas ainda de madrugada e conversar sobre os mais diferentes assuntos com aquela cara amassada de quem acabou de acordar. Quando terminávamos, Seu Mendes protagonizava um retorno apressado até a emissora, sempre a tempo de entrar no Bom Dia.

Agora, o Bugio Velho vai ter mais tempo para a sesta

Com o passar dos anos, nossa rotina foi quebrada por algumas viagens inesquecíveis. Fomos para Minas do Camaquã, Caçapava, Santana da Boa Vista, Rosário do Sul, Alegrete... Foi em uma delas que ele, dirigindo atento pela rodovia, disse ter visto um bando de bugios. Eu e o Serginho não acreditamos. Então, Seu Mendes deu meia volta e mostrou dezenas de macacos em árvores da beira da estrada. A partir daí, passamos a nos chamar de Bugio Novo (eu), Bugio Velho (ele) e Bugio Grisalho (o Serginho). E isso durou até os dias de hoje.

Seu Mendes se preocupava com a pauta e com o dinheiro para o pedágio. Saía da TV com as notas reservadas no bolso da camisa, mesmo que precisasse pagar muitas horas depois. Visitei-o no sítio da zona sul, onde ele morou por mais de 15 anos e onde morreu sua esposa. Fui conhecer o apartamento do Menino Deus, quando ele ainda procurava um para comprar. Fiquei sabendo de cada passo do Henrique, neto que ele criou como filho, desde a escola, até o vestibular e a universidade.

Sempre quis voltar a trabalhar de novo com o Seu Mendes. Infelizmente, nos últimos anos, nossos encontros foram rápidos, no corredor e no pátio da TV. O suficiente para matar a saudade e dar boas risadas. Ontem, fiquei triste por saber da sua aposentadoria só depois que ele já tinha se despedido de todo mundo. Mais do que as lembranças, guardarei para sempre as frases que ele dizia repetidas vezes durante o caminho para as matérias. “Essa gente não vive... sobrevive”, sobre os mendigos. “Pra morar em alto de morro, só sendo muito pobre ou muito rico”, quando subíamos em algum deles. “Esse lugar aqui é ponto de tráfico”, para quase todas as esquinas da cidade.

Espero que agora o Bugio Velho aprenda a se preocupar menos com as bobagens da vida e consiga desfrutar de uma tranqüila aposentadoria.

36 horas de viagem... e ainda não acabou

30 de novembro de 2011 2

O carro parou em uma encruzilhada. O motorista do táxi não sabia para onde ir. Não havia placas. Nenhuma indicação. O relógio marcava meia-noite e uma forte neblina fazia com que a visibilidade fosse de uns cinco metros, no máximo. Estávamos em uma estrada perdida no meio do campo, no interior da Alemanha. Diante deste cenário de filme de terror, as perspectivas eram as piores possíveis. Nenhum dos três passageiros (e eu estava entre eles) falava alemão. E o motorista só falava alemão. Não tínhamos o endereço do hotel, nem o nome da cidade para onde íamos. Pedir ajuda para alguém pelo celular? Impossível. Estávamos sem o aparelho. E se estivéssemos com ele, não haveria sinal.

O drama começou depois de uma viagem de 36 horas entre Porto Alegre e Hannover. Tivemos paradas no Rio de Janeiro, em Madri, na Espanha e em Munique, na Alemanha, antes de chegar ao destino final. E entre elas, muitas horas de espera nos aeroportos. Quando finalmente desembarcamos em Hannover, a van, que deveria estar nos esperando, foi substituída por um táxi. O dono da van simplesmente “terceirizou” o serviço e deu poucas informações ao motorista. Nosso destino era o hotel Henry, na pequena cidade de Goslar, distante 75km dali. Só não imaginávamos que chegar lá seria tão complicado.

A rodovia que ligava as duas cidades estava cheia de obras. Em diversos locais, os trevos de acesso a algumas cidades foram interrompidos. Assim, o GPS do taxista indicava a entrada e ele não podia acessar o caminho. Foi assim uma, duas, três vezes. Ele resmungava palavras em alemão que a gente não fazia ideia do que eram. E também perguntava, pedia ajuda. Quando soltei um “do you speack english?”, ele só berrou um no, no, no. Talvez por isso tenhamos demorado tanto. Uma hora até chegar à encruzilhada da neblina. E mais meia hora até ingressar na cidade.

Quando o carro parou, em frente ao hotel de Goslar, eu, o cinegrafista Cristiano Mazoni e o presidente do IRGA, Claudio Pereira, só queríamos saber de banho e cama. Naquela hora, madrugada de segunda-feira, a recepcionista, uma senhora com mais de 60 anos, deixou o leito onde descansava para nos atender. No caminho entre um prédio e outro, escorregou no gelo que cobria a calçada e caiu de costas no chão. Por alguns instantes, tive que fechar os olhos para ter certeza que aquilo era mesmo verdade. Quanta desgraça! Com fortes dores e reclamando muito, a senhora nos entregou as chaves e disse algumas palavras que não foram compreendidas. Só entendemos o significado dos altos gemidos que nos acompanharam pelo corredor até os quartos. Ninguém disse boa noite.

Quarteto Fantástico acaba com tranquilidade em voo

22 de novembro de 2011 2

24 horas de viagem acabam com a gente. 36 horas, então... esse foi o tempo que levamos para ir do Brasil até a Alemanha. E merece um post especial. Mas hoje quero falar da volta.

Foi assim, depois de quase um dia voando e perambulando por aeroportos, que chegamos a Hannover, na Alemanha, na madrugada de segunda-feira, dia 14. Eu, o cinegrafista Cristiano Mazoni e o Presidente do Irga Claudio Pereira, o Batata. Fim da viagem? Não. Ainda tínhamos que pegar o táxi que nos levaria até o hotel, na cidade de Goslar, a 70 km de onde estávamos. O que aconteceu nos mais de 60 minutos seguintes poderiam figurar em um filme de suspense e terror.

O retorno para casa foi mais rápido, mas nem por isso tranqüilo. Quatro personagens que poderiam ter saído de um filme do Almodóvar contribuíram para que o voo de Madri ao Rio de Janeiro fosse bastante conturbado. São eles: um marinheiro brasileiro loiro, de cabelos compridos e com cara de macaco que viveu alguns meses em Paris; um jovem malandro carioca, de sorriso largo e sotaque chiado, que visitou a mãe na Espanha e depois perambulou pela Europa; um travesti espanhol com cabelos revoltos e roupa de ginástica, pronto para passar as férias no Rio de Janeiro; uma arquiteta cinquentona com jeito e cabelo de uma guria de vinte anos.

Os quatro se conheceram dentro do avião. Estavam sentados em poltronas próximas. Trocaram figurinhas e afinidades. Fumaram escondidos no banheiro do avião. Beberam todos os vinhos e espumantes disponíveis no voo da Ibéria. E atormentaram a vida dos outros passageiros.

Sabe quando você está quase pegando no sono e de repente vem uma gargalhada de um mundo paralelo e te trás de volta para o mundo dos acordados? Foi assim a viagem inteira. Bastava o sono se aproximar e o travesti, ou o marinheiro, ou o malandro carioca, ou a arquiteta soltavam uma risada de bar, ali, na penumbra do avião. Bêbados e falando sem parar, chegaram a dançar pelo corredor. As “aeroviejas” da Ibéria tentaram fazer com que se mantivessem sentados. Pediram uma, duas, três vezes. “Elas alimentaram tudo isso”, reclamou uma passageira insone, do meu lado. Sim, deram todas as bebidas que eles pediram e depois vinham pedir para que se acalmassem. Que nada! Foi assim até o Rio de Janeiro.

O malandro carioca deu o telefone para o travesti. Disse que estava se mudando para um apartamento novo, de três quartos, e que iria fazer uma festa antes de levar os móveis para lá. Combinaram uma saída antes disso. O travesti iria ficar em um hotel no Catete, próximo da casa dele. O marinheiro iria direto para Búzios, sua terra. “Mas venho para a festa se vocês me chamarem”, disse ele, enquanto guardava na mochila os talheres, travesseiros e cobertores distribuídos durante o voo. “Eu sou da paz, eu sou da paz”, sussurava a arquiteta, enquanto fazia uma sessão de tai chu chuan no corredor. “Não sei porque essa gente faz cara de brava... Por que?” Eu poderia explicar direitinho se tivesse paciência para isso. Mas o quarteto acabou não só com a minha dose, mas com a de todos os outros.

Dez horas de viagem demoram muito a passar. Mesmo com um livro, uma revista, um café, um almoço no meio. Chega uma hora que o tempo não passa. Mesmo com o planeta dos macacos ou outro filme de ficção passando no monitor. Não passa. Não passa. E as conversas que persistem. E o riso frouxo. E o corpo frouxo de um ou de outro se jogando sobre as cabeças de quem tenta, em vão, fechar os olhos e sair dali. Por dez horas, eles foram os nossos maiores problemas. Esquecemos de tudo. Tudo passou a ter valor menor. Só queríamos nos livrar daquele incômodo que nos acompanhou até a chegada à Cidade Maravilhosa.

O bom é saber que com o fim da viagem, o problema acaba. Cada um no seu quadrado. Um em Búzios, outro no Catete, outro no Largo do Machado e nós bem longe deles. Depois de um dia, os quatro viram uma lembrança ruim e até engraçada. Que sejam todos felizes bem longe de mim.

Viagem à vista

11 de novembro de 2011 1

Dia de fazer as malas e pegar o passaporte. Amanhã parto para a cobertura de uma feira de máquinas na Europa. Tem todo aquele clima de expectativa, de conhecer um país novo, uma cidade legal e ao mesmo tempo a certeza de muito trabalho pela frente.

Gosto muito de viajar, seja a trabalho ou de férias. Vai ser uma semana fora. Mas sei que lá pelo quinto dia já vai estar batendo uma saudade de casa. Sinto falta das minhas coisas, da minha cama, do meu sofá, da minha tevê, dos meus programas, daqueles momentos só teus. A viagem é quase uma excursão. Eu e o cinegrafista Cristiano Mazoni vamos estar acompanhados por dezenas de pessoas aqui do Rio Grande do Sul que vão conhecer a feira. Com certeza, vou trazer muitas histórias de lá.

Duas imagens da estrada

10 de novembro de 2011 1

Tem dias que a paisagem fora do carro compensa o cansaço de uma longa viagem. Ontem eu estava revirando as fotos guardadas no celular e encontrei estes dois registros.

A foto de cima é de Galópolis, no interior de Caxias do Sul. Gosto muito dela porque parece um quadro. Foi tirada ao acaso, com o carro andando e aparece bastante coisa: árvore, morro, céu...

A foto aí embaixo é da entrada de Porto Alegre. Fim de tarde, chegando na capital e o sol se pondo no Guaíba. Tem exagerados que consideram esse um dos mais lindos cenários do mundo.

O sol se põem em um dos principais acessos Porto Alegre

A Porto Alegre que eu não conheci

09 de novembro de 2011 0

Foto de Porto Alegre: anos 60/70

A foto do alto do Morro Santa Teresa, em Porto Alegre, rodou pela internet nos últimos dias e foi copiada por moradores e saudosos que vivem longe da cidade. Dizem que é do final dos anos 60, início dos 70. Ao fundo, prédios altos. Abaixo, uma tranquila avenida Borges de Medeiros. O Parque Marinha do Brasil não existia e o Guaíba se espraiava por uma área hoje aterrada. A vista era de uma cidade rural e urbana ao mesmo tempo. Uma imagem que pode valer mais do que mil palavras porque todo mundo quer falar mais um pouquinho. É de um tempo onde o alto do morro era ponto de encontro das famílias, local de brincadeira para as crianças, de comércio para o pipoqueiro. Hoje, a vista continua linda, mas ficar ali, mesmo que poucos minutos para esperar o ônibus, é um risco. Resolvi guardá-la aqui no blog para que alguns relembrem desta época sem violência ou saibam que ela existiu.

A matéria em versos do Acampamento Farroupilha

19 de setembro de 2011 1

Confira a reportagem veiculada no Rural Revista desse domingo, dia 18.


Reportagem em versos gaudérios

17 de setembro de 2011 3

O acampamento farroupilha é uma das maiores atrações de Porto Alegre. Durante um mês, todos os anos, os tradicionalistas se mudam para um parque perto do centro da capital e vivem um cotidiano bem diferente do das grandes cidades. É como se estivessem no interior, com fogueira, churrasco, baile, etc. Faço esta reportagem há pelo menos 10 anos, primeiro na RBS TV, depois no SBT e agora no Canal Rural. Desta vez, resolvi fazer algo de diferente. Escrevi a matéria em forma de versos ou trovas, como fazem os gaúchos na beira do fogo dos galpões. A reportagem vai ao ar neste domingo, às 20h30min, no Rural Revista. Mas eu vou dividir o texto com os leitores do blog.

Leiam abaixo o texto da cabeça (parte que é lida pelo apresentador do programa) e depois os offs (quando o repórter fala) e as entrevistas com as pessoas que estavam no acampamento...

O MAIS FAMOSO ACAMPAMENTO DO SUL DO PAÍS FICA EM PORTO ALEGRE./ EM PLENA CAPITAL GAÚCHA, OS APAIXONADOS PELA TRADIÇÃO CAMPEIRA TRANSFORMAM O MUNDO URBANO EM UMA TÍPICA PAISAGEM RURAL./ UM LUGAR QUE PODE SE CANTADO EM VERSO, COMO NA REPORTAGEM DE CRISTIANO DALCIN.//
 
 
 
off 1
os prédios altos estão aqui para que ninguém esqueça: esta é uma cidade./ embora não pareça...//
 
valdir almeida/contabilista, 12.38
parece que a gente está no campo, né? isso aqui é uma atração. é uma cidade campeira armada em pleno centro da cidade. isso aqui é inédito, né?
 
off 2
e é um formigueiro humano este acampamento farroupilha./ tem gente grande, pequena, programa pra toda a família.//
 
angélica soares/enfermeira, 09.27
- hoje a gente reuniu todo mundo, viemos almoçar aqui e mostrar a tradição pras crianças, né?
- até os bebês?
- com certeza.
 
off 3
é uma beleza de passeio./ um parque transformado em cidade, com as estradas no meio./ e quatrocentos piquetes, casinhas que parecem fazendas./ até o galo veio./ o acampamento dura um mês, mas, por eles, durava o ano inteiro.//
 
cleber kieffer marques/motorista, 15.34
a gente vem pela amizade, companheirismo. é um negócio diferente, pela tradição, né? é pelo rio grande.
 
off 4
a tradição encanta estrangeiro, paulista e carioca./ e enche de orgulho a prenda que é chamada de chinoca.//
 
dulce helena mendonça dos santos/aposentada, 06.26
chinoca é a prenda da melhor idade, digamos assim. porque ao longo da nossa vida, na tradição gaúcha, a gente vai acumulando saberes, primeira prenda, segunda prenda, várias atividades aí chegamos em uma idade que a gente acumula conhecimento. aí o que fazer com essas pessoas? resolveram nos brindar como chinocas.
 
off 5
no acampamento, há muita música pra dançar e pra ouvir./ e sem falar no churrasco: claro que nem eu resisti.//
 
vanessa teixeira/museóloga, 08.01
essa parte assim da cultura tradicionalista eu acho que não pode ser deixada de lado jamais porque tem uma importância fundamental para o povo gaúcho.
 
off 6
tanta alegria acaba mais cedo ou mais tarde./ vai até a terça-feira./ e já começa a deixar saudade.//
 
flávio vichinheski/motorista, 16.27
todo setembro, final de agosto, setembro, eu tiro férias pra vir acampar. chego aqui, monto meu galpão e como tu tá vendo, é essa galera que tá aí. o pessoal que vem, recebo todo mundo, a porteira do meu galpão é aberta.
 
sobe som, 17.20
venho chegando de longe, dos pagos lá da fronteira. de pingo alçado no freio, tapado de polvadeira. mas de longe senti o perfume desta festa galponeira. por isso vou abrir esta gaita, no tranco de uma vaneira
 
e segue o sobe som da música, cobrindo com imagens do acampamento

A dança das redes na selva de pedra

30 de agosto de 2011 3


Contra o sol, as redes quase desaparecem


Se pudesse escolher, eu veria muito verde da minha janela. Uma mata fechada, passarinhos voando pra lá e pra cá. E um riacho. Sim, tinha que tem uma sanga que fizesse barulho. Penso sempre em abrir a janela, ver o verde e ouvir o barulho da água correndo. Um sonho distante para quem só vê prédios e mais prédios crescendo no bairro.

Há algum tempo, procurando pelo verde e pelo riacho que só existem nos meus sonhos, encontrei as redes que cobrem os prédios em construção.  De longe, não tem como saber se são realmente redes. Também nunca me preocupei em descobrir. Imagino que sejam redes, embora pareçam vestidos, lençóis, toalhas gigantes que protegem a obra ainda inacabada. E estas redes são o único sopro de vida diante dos espigões que cobrem a paisagem.



Futuras janelas do prédio: por enquanto encobertas pela rede


Nos últimos anos, já foram horas e horas "perdidas" olhando as redes. Pra mim, elas têm um efeito hipnotizador. Quase nunca estão paradas. O vento vem, o vento vai, o vento rodopia. E elas dançam, como se estivessem embaladas por uma música que o resto do mundo não ouve. Posso vê-las agora, se olhar pela janela. Diante de mim, estão as maiores que apareceram no Menino Deus desde que vim  morar aqui, há 9 anos. São redes de um prédio de vinte andares que deve estar pronto no começo do ano que vem.


A roupa que cobre o concreto acompanha a velocidade do vento


Não sei até quando elas vão cobrir a estrutura. Às vezes, o tempo voa e quando vejo, não tem mais rede nenhuma. Às vezes, elas permanecem por mais tempo do que eu poderia imaginar. Talvez  ninguém mais observe esta rotina silenciosa. Jamais ouvi alguém falar sobre isso. Mas posso garantir que você não sabe o que está perdendo. A dança tem um efeito tranquilizador, como dizem que tem os aquários. Experimente. Vá para a sua janela e procure um prédio assim. Pare. Sinta o vento. Espere ele chegar até lá. Acompanhe o vai e vem. Elas não estão se mexendo? Não tem problema, isso acontece. Então é porque não há brisa alguma. Até nas janelas que têm riachos e florestas, o vento descansa de vez em quando.


O prédio inteiro coberto pela rede que dança