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O pesquisador é um agregador

18 de maio de 2012 0

Lembrei-me ontem de um conceito emitido pelo professor Fernando Sarti, da Unicamp, que resgatei para embasar o presente artigo e transcrevo textualmente.

“as exportações brasileiras de soja, uma commodity, têm mais conteúdo tecnológico que as de telefones celulares, um produto manufaturado. Enquanto a produção de soja envolve um investimento grande em sementes, química fina e biotecnologia, a de celulares muitas vezes se limita a montagem de componentes importados.”

Este conceito vale não apenas para soja. No caso do milho, é ainda mais acentuada a presença da tecnologia na produção.

Recordei do conceito ao participar, em Campinas, de um evento onde a Dow AgroSciences lançou nova tecnologia para cultura do milho.

Sempre que convidado, compareço às atividades das empresas que contribuem para que possamos manter o Fórum Nacional do Milho em suas versões eletrônica e presencial.

Foi um excelente encontro. Nele tive a oportunidade de aprofundar conversas com pesquisadores que falam com orgulho do trabalho que fazem. Exercem uma atividade de profunda introspecção e com necessidade de grande conhecimento científico. No entanto, os resultados de seus trabalhos beneficiam a um grande conjunto de pessoas e concorrem para desenvolvimento econômico e bem estar social.

Lembro que, quando criança, em Erebango, minha família decidiu, para complementarmos renda, que eu deveria vender amendoins achocolatados que minha mãe fazia - com capricho e perícia – no cinema e no campo de futebol.

Como eram três sessões cinematográficas semanais e normalmente um jogo de futebol aos domingos, a demanda passou a ser intensa. Meu pai, então, começou a pensar como ele, que era carpinteiro, poderia fazer uma máquina para descascar amendoins. Desenvolveu o trabalho introspectivo de buscar a forma. Fez a máquina e ajudou, com isto, na agregação de valor à renda familiar.

Retomando a questão da pesquisa agrícola, é obvio que não haveria condições de alimentar a população mundial crescente, cada vez mais urbana e longeva, se não tivéssemos condições de aumento da produtividade dentro de um processo de sustentabilidade. Por isto, minha profunda admiração pelos pesquisadores e empresas de pesquisa públicas e privadas.

Assisto com estranheza às discussões a respeito de crescimento da pesquisa na área privada e enfraquecimento de instituições públicas do setor.

Há poucos dias estive em um evento da Embrapa onde assisti à celebração de uma sessão de convênios entre a extraordinária instituição federal, que hoje, inclusive, leva conhecimento e visão moderna para além das fronteiras do Brasil, com empresas e entidades da área privada dos setores de insumos, principalmente sementes, bem como de máquinas agrícolas.

Estabelecer uma disputa entre resultados da pesquisa oficial e a particular é um contrassenso. O importante é somar e isto a Embrapa e as empresas privadas estão fazendo.

A pesquisa não pode ter rótulo, mas destina-se à produção de resultados.

O pesquisador age, repito, com conhecimento científico e ação introspectiva para produzir efeitos extraordinários destinados à população mundial.

Benditas pesquisas – pública e privada – que na área do agronegócio concorrem para garantia alimentar do mundo.

Odacir Klein

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Interpretação de manchetes

15 de maio de 2012 0

Hoje é possível escolher a manchete para embasar este artigo.

Alguns veículos divulgam que os fundos estão fugindo das commodities agrícolas, em função da crise europeia e a preocupação dos investidores com ativos de risco. Outros informam que pela primeira vez, em dez anos, a safra brasileira de milho supera, em volume, a de soja. Há, também, a notícia de que o oeste baiano está, pela primeira vez, exportando milho.

No seu conjunto, tais manchetes devem nos levar a uma profunda reflexão. Muitas vezes as circunstâncias nos causam euforia, quando o correto é a racionalidade.

Vivemos, hoje, no mundo, uma crise na Europa com reflexos não apenas nas contas públicas, mas também no processo de desenvolvimento. Em razão dela e da lenta retomada do crescimento da atividade econômica nos Estados Unidos, mesmo os países chamados emergentes têm reduzido seu crescimento.

De outra parte, como escrevi há poucos dias, vivemos hoje em mercado de alta volatilidade, pois a circulação dos recursos especulativos durante um ano representam dez vezes o valor do PIB mundial.

Se a crise europeia resultar em dificuldades no crédito, poderemos encontrar percalços para a comercialização, nos mercados externos, das proteínas animais, embora a demanda crescente por alimentos.

Isto ocorrendo, teríamos repetida a situação ocorrida ao início da crise americana, quando os estoques de alimentos não eram repostos, nos países importadores, em função da falta de financiamento do capital de giro.

O Brasil, com expressivas reservas cambiais, tem condições de criar mecanismos para suprir tal dificuldade.

No caso específico do milho, temos anúncio de expressiva safra nos Estados Unidos e segunda safra brasileira com volumes acima de qualquer expectativa das consultorias especializadas.

Alguns argumentam que o aumento das importações chinesas ensejará o equilíbrio entre oferta e demanda. No entanto, em termos de mercado internacional, tais importações serão disputadas pelos países com excedentes do grão.

No caso brasileiro, em função do volume que será colhido na segunda safra, teremos necessidade de aumentar nossas exportações em, no mínimo, cinquenta por cento em relação às do ano passado, ou conviveremos, ao final do ano, com um aumento de estoque de 5 milhões de toneladas.

Será preciso planificar para que nem o produtor seja penalizado com a abrupta queda de preços nem haja desestímulo ao plantio de primeira safra, com acentuada opção pelo plantio de soja.

Por isto, embora possa parecer insistente, entendo que precisamos envidar todos os esforços tentando discutir e garantir mecanismos para as necessárias políticas, visando à armazenagem, transporte, comercialização e formação de estoques de milho.

Se isto não ocorrer, poderemos estar concorrendo para dificuldades em toda a cadeia produtiva.

Odacir Klein

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Supersafra de milho

11 de maio de 2012 1

Poderá parecer que este assunto é “requentado”. No entanto, convém repeti-lo para chamar a atenção, desde logo, da necessidade de preparar práticas mercadológicas visando à comercialização da safra de milho que será colhida no Brasil, em função do volume que representará o que chamávamos de “safrinha” e agora transforma-se em “safrona”.

Se excluirmos a produção de milho do Nordeste do que denominamos de primeira safra, pela época diferente de plantio, constataremos que no corrente ano, em função de estiagem no Sul, não haverá mais diferença entre esta última e a “safrinha” no respeitante à colheita em toneladas.

Tivemos estoques de passagem garantidores do abastecimento normal nos primeiros meses do corrente ano. Isto demonstra que a diferença entre o volume colhido na safra 2011/2012, previsto em torno de 65 milhões de toneladas, representará a disponibilidade de excedentes em torno de 15 milhões de toneladas, se considerarmos a previsão de consumo interno de 50 milhões de toneladas.

O primeiro aspecto a considerar é que parcela do que será consumido internamente necessitará de movimentação para chegar aos locais de demanda.

Diante disto, a primeira preocupação é com garantia de políticas visando a tais práticas com logística, pois os excedentes estarão no Centro-Oeste e em áreas do Paraná.

Agrava a situação o fato de que 15 milhões de toneladas excedentes ao consumo interno deverão ser destinados ao mercado externo, ou teremos significativo aumento de estoques. É obvio que não podemos ter expectativas de exportações muito superiores à média dos volumes dos dois últimos anos, até porque a previsão é de que os Estados Unidos aumentem sua oferta para o mercado internacional.

É fundamental que não corramos o risco de vermos repetida a situação ocorrida em 2009 e primeiro semestre de 2010. É muito importante que, desde logo, comece a haver preocupação com as medidas que deverão ser tomadas visando à regularização de mercado.

Parece-me que a reunião da Câmara Setorial do Milho e Sorgo que ocorrerá no dia 31 de março, em Luis Eduardo Magalhães-BA, será uma excelente oportunidade para aprofundamento das discussões a respeito do assunto entre os elos da cadeia produtiva e o governo.

Odacir Klein

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Milho: mercado e volatilidade

08 de maio de 2012 0

Sempre afirmei que não pretendo, através deste espaço, exercer consultoria de mercado. Para tal mister existem consultores com alta qualificação que, mesmo assim, não têm bola de cristal.

No entanto, sinto que há perplexidade de muitos produtores pelo fato de no mercado internacional ocorrerem oscilações de preços sem explicações convincentes. Ora são anúncios de aumento das importações chinesas, ora de volume da área plantada nos Estados Unidos ou da situação climática bem como outros fatores.

Os preços oscilam e para tanto os fatores de mercado – oferta e demanda – influam significativamente. No entanto, as oscilações muitas vezes são resultado de uma presença muito forte de operações nos mercados de derivativos sem vínculo com volume físico de produção.

Tais mercados movimentam anualmente 10 vezes os recursos correspondentes ao PIB mundial. Isto é uma demonstração de que as operações ocorrem sem a correspondente vinculação com o objetivo de entrega de produtos.

Verdade que há os que praticam os chamados hedges visando à proteção de preço, que normalmente chamamos de travas, para não correrem os riscos de fortes oscilações. Estes procuram garantir operações de compra e venda.

Há também os market makers, que são especializados em determinados produtos e como os compram e vendem nas operações em bolsas, muitas vezes ajudam a analisar riscos.

No entanto, há forte presença dos especuladores, que não têm nenhum interesse no ativo objeto da negociação, mas apenas garantir lucros, pelo que compram e vendem com muita rapidez, provocando modificações nos preços.

Além deles, há os arbitradores que compram onde está mais barato e vendem onde está mais caro, muitas vezes através de opções por ativos diferenciados, buscando apenas o lucro e podendo, sem movimentações físicas, praticar diversos atos de mercado.

Neste sentido, o milho, que é uma commodity, tem posição diferente de alguns produtos dele derivados, inclusive proteínas animais, que não integram este círculo mercadológico.

No entanto, em que pese a volatilidade, a lei da oferta e da procura, que fundamenta os mercados, sempre será o fator determinante dos preços. A volatilidade fará com que subam e desçam, mas os fundamentos de mercado garantirão uma posição intermediária que corresponde à realidade.

Por isto, é muito importante que os produtores tenham orientação de suas cooperativas ou tradicionais agentes de mercado para não serem conduzidos por situações transitórias, sofrendo prejuízos por má comercialização.

Odacir Klein

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Lula entusiasmado: interação Brasil / África

04 de maio de 2012 0

Como brasileiro, fiquei muito feliz em assistir ao desempenho do ex-presidente Lula no Seminário “Investindo na África: oportunidades, desafios e instrumentos para cooperação econômica”, realizado no BNDES no dia 03 de maio.

Recebi, na condição de presidente da União Brasileira do Biodiesel – UBRABIO – diretamente da assessoria do ex-presidente no Instituto Lula, convite para participar do mencionado Seminário, alusivo também aos 60 anos de atividades do BNDES.

O governo brasileiro esteve representado na mesa de abertura dos trabalhos pelos ministros Fernando Pimentel – MDIC – e Edison Lobão – MME – além de Luciano Coutinho, Presidente do BNDES.

O ex-presidente chegou ao evento caminhando apoiado em uma bengala. Ouviu os pronunciamentos que antecederam ao seu e iniciou dizendo que há alguns meses não fazia um discurso e pedia antecipadas desculpas se tivesse dificuldades vocais no decorrer de sua exposição.

Começou falando lentamente, mas, em um crescendo, foi se entusiasmando e falou com vigor e naturalidade, demonstrando que avança aceleradamente em seu processo de convalescença. Parecia que nunca estivera doente.

Impressionou a todos quando falou sobre a crise mundial dizendo que o Brasil e a África não foram geradores dela. Que medidas equivocadas para combatê-la - diminuindo empregos e promovendo retrações econômicas, ao mesmo tempo em que jogam grandes volumes de recursos nas mãos de poucos - premiam os originantes da crise e, em muitos casos, aumentam a penalização dos que não a geraram, mas dela são vítimas.

Durante o evento, Carlos Lopes, Secretário-Geral Adjunto da ONU e também Secretário-Executivo da Comissão Econômica para a África, chamou a atenção dos presentes para o fato de que o mundo não percebe que, em termos continentais, o maior aumento percentual de PIB ocorre exatamente no continente africano.

Durante as exposições foi ressaltado que a taxa média de crescimento econômico para os países africanos será de 6% ao ano - entre 2010 e 2040 - e que nos próximos 30 anos o PIB de referidos países vai sextuplicar e a média do rendimento per capita vai subir acima de U$ 10.000,00 em todos eles.

Ficou claro que a população africana aumentará acentuadamente e tornar-se-á cada vez mais urbana, exigindo produção de alimentos, com produtividade resultante de uso de tecnologia.

Haverá necessidade de recursos para investimentos.

O continente africano será, sem dúvida, importante no contexto de comércio internacional.

Agir na interação com a África não é apenas praticar atos de solidariedade necessários de forma imediata para algumas áreas do mencionado continente, mas olhar para o futuro.

Investidores e empresários presentes ao evento informaram de seus investimentos e negócios na África.

O ex-presidente Lula, com visão de longo prazo, age não apenas com solidariedade em relação às áreas africanas carentes de assistência a curto prazo, mas olha para o porvir sabendo da importância para o mundo de uma interação econômica com profundos reflexos sociais.

Gostei do que assisti: plena convalescença do ex-presidente, pronunciando-se com garra e vigor, ao mesmo tempo em que assuntos da maior importância para as economias brasileira, africana e global eram discutidos visando aos avanços na qualidade de vida das pessoas.

Foi gratificante a oportunidade de participar do evento.

Odacir Klein

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